The Brazilian Daily Artist

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Saturday, November 15, 2014

A arte de mudar para viver melhor

Como alguém que não se conhece pode falar tão detalhadamente sobre algo marcante em nossa vida?
E então penso...o que leva a estes pensamentos, a esta sacada sobre a necessidade de mudanças ou sobre como encará-las? Porque certamente já viveu também a experiência.
O jornalista Pedro Bial, certa vez,  interpretou sobre a necessidade de mudar ou de aceitar mudanças de forma favorável. Este texto que pertence a Clarice Lispector, mas, é frequentemente enviado como de Pedro Bial, que o leu certa vez, em uma apresentação, fala sobre as mudanças. O engraçado é que enquanto lia, parecia estar num flash-back de pensamentos, dos que tive em cada situação da minha agitada vida.
Não conhecia a Clarice. Não conheço o Bial, nunca troquei palavras com ele, mas gosto de seu jeito de ler e interpretar o texto. Já o vi e cruzei seu caminho mais de uma vez, no saguão do aeroporto de Congonhas, base em que eu trabalhava antes de ser transferida para outra unidade. Hoje, ao ler este texto que se intitula 'Mudanças', eu me vi descrita, de certa forma, porque tudo o que ela, Clarice, 'aconselha' neste texto, é o que eu já fazia e faço, aquilo do que eu tenho consciência já há muito tempo, porque aprendi a tirar proveito das mudanças...
Eu tive e pelo visto, continuo tendo uma vida cheia de mudanças...E cada um que me conhece, e que diz: _ Na minha vida nada acontece de interessante! _ tem suas respostas das formas mais curiosas, às vezes até engraçadas...Uns dizem que 'por eu ser confiante em Deus, sou perseguida pelo inimigo Dele, pois não gosta dos que têm uma relação achegada e íntima com Ele'. Outros que não são religiosos, mas tem suas crenças, dizem que é porque sou dragão no horóscopo chinês, e o dragão é invejado e perseguido, mas gosta de desafios de mudanças que o levam a ser um mestre na vida' ou ainda, talvez porque sou Libra com ascendente em Áries e Lua em Leão...Eu não entendo nada disto! Deus eu sei que existe! Que existe existe...mas não o aceito na forma das religiões, que confundem e dividem os homens. Deus é Deus, O reconheça, O ame, O adore e pronto.
Cada um diz que entende o que acontece. cada um ao pensar algo de minha vida, diz uma coisa...E a única coisa que sei é que sou uma transformação constante. O que não significa que eu não tenha foco, diretriz, meta. Eu tenho! E como! Como eu tenho!
Mas são as mudanças, o meu combustível, o diesel do meu motor.
Mudanças foram impostas na minha vida desde cedo. Durante a minha pré-infância e infância eu sofri muitas mudanças. Eu digo 'sofri' porque não foram promovidas por mim. Foram mudanças grandes, sérias, radicais, das quais eu não tinha nem idade e nem capacidade para evitar ou para entender. Tinha que 'aceitar'.
E assim, tudo o que eu fazia era, fosse boa ou ruim, era me adaptar. Com isto desenvolvi uma grande e espantosa capacidade de adaptação, uma pessoa capaz de estar tranquila e empática em um transatlântico de luxo, numa Babel de línguas que aprendi a decifrar, ou até no lugar mais sem recursos e precário, um sertão do Brasil, uma Angola, um Afeganistão...E a cada mala feita, fosse da mãe ou do pai, do avô ou da avó, lá ia Luísa, tentando na idade da inocência entender tantas idas e vindas... foi na adolescência e na vida madura, num abre e fecha de malas, num carrega e descarrega de formiga, que aprendi a ser extremamente prática e a não me apegar a quinquilharias. Salvo o básico e necessário. Crio meus recursos aonde não há.
De lancha, de uma ilha para a outra com os pais, de carro, de caminhonete, de jipe, de avião, eu fiz mudanças, e morei aqui e ali, onde quer que fosse necessário eu ir. Só de 2006 para cá, morei em três estados, até me estabelecer aqui em São Paulo, terra que me conquistou porque tem tudo a ver comigo: trabalho, atividade constante, transformação, cultura saindo como vapor...história.
A minha cidade natal. o Rio de Janeiro, tem, também, tudo isto, mas não tem o meu pique, os meus volts.
As impostas mudanças me transformaram numa guerreira, uma aventureira capaz de encarar o que vier, de destrinchar problemas como se destrincha um frango para fazer um salpicão.
Um amigo muito íntimo, que me conhece há trinta e cinco anos diz: _ Luísa, você degusta os problemas como se fossem o arroz com feijão-batata e bife do jantar... (bem, eu sou vegetariana (ele sabe!) ...mas tudo bem)...nós entendemos o que ele quis dizer.
Neste dia, que foi pouquíssimo antes de eu deixar minha cidade natal, eu acho que fiz um flash-back da minha vida até ali, até o último 'problema'.
Problema que não busquei, que não quis, mas que veio, e que não dependia de mim resolver, porque se dependesse, resolvido já estava.
Eu não reclamo mais do desgaste das mudanças...não reclamo porque aprendi coisas que poucos sabem. resolvo problemas até para os outros com uma facilidade espantosa, e quando não estou 'ensinando ou aconselhando o que fazer'. E graças a Deus dá certo.
Não tenha medo de mudanças...elas vêm, às vezes, sem querermos ou  promovermos, mas não tenha medo.
Mudança faz crescer, mudança fortalece. A mudança têm o poder de transformar um espírito cansado num lutador dinâmico. Em alguém vivo, participativo, incansável.
hà mudança que cansa...mas muda algo que precisava mudar, e hoje você não entende, mas, mas tarde vai entender.
Tenho um ditado que diz, 'Deus faz hoje, o que você só vai entender amanhã'.
Eu entendi agora, o porque eu fui treinada nelas, porque eu fui lapidada nelas.
Cada uma foi, para o meu bem. E para o bem dos que dependeram ou dependem de mim.
Cada uma fez a Luísa tão forte e capaz que eu sou hoje.
Deixo aqui registrado o texto dele, para que leiam e que reflitam, onde e porque estão precisando de uma 'mudança' na vida:

'Mude!' _ watercolor _Luisa Dalartesa


MUDE _ Texto de Clarice Lispector
Mude.
Mas comece devagar
porque a direção é mais importante que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair procure andar pelo outro lado da rua.
Depois mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente,
observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.    
Tire uma tarde inteira pra passear
livremente na praia, ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a
mão esquerda.
Durma do outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de TV,
compre outros
jornais... leia outros livros.
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa
outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas
diferentes, novos temperos, novas cores,
novas delícias.
Tente o novo todo dia,
o novo lado, o novo método, o novo
sabor, o novo jeito, o novo prazer, o
novo amor, a nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros
restaurantes, tome outro tipo de bebida,
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais cedo ou
vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de
sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores
Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos
diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas,
troque de carro, compre novos óculos,
escrevas outras poesias.
Jogue fora os velhos relógios, quebre
delicadamente esses horrorosos
despertadores.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas, outros
cabeleireiros, outros
teatros, visite novos museus.
Mude.
Lembre-se que a vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um novo
emprego, uma nova ocupação, um
trabalho mais light, mais prazeroso, mais
digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser
livre, invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem
despretenciosa, longa, se possível sem
destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas
melhores e coisas piores do que as já
conhecidas.
Mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o
movimento, o dinamismo, a energia.
Só o que está morto não muda!

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