The Brazilian Daily Artist

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Saturday, September 25, 2010

29ª Bienal de Arte _ Reflexões _ Luísa Artèsa


A discutível 'necessidade' de polemizar. Até onde um artista deve ir para ter destaque? Até onde um artista deve ir para promover seu nome (mais ainda!) e seu trabalho?

É necessário este artifício quando já se tem um nome no rol dos artistas aclamados? Ou até onde ele deve ir ao expressar suas indignações com o mundo em que vivemos?


Com muito pesar, porém, com respeito, expresso a minha indignação quanto a opinião do artista plástico Gil Vicente, a que tive acesso na reportagem de 18 de setembro último, no jornal Estado de São Paulo, acerca de uma polêmica causada pela sua atitude de expor no evento da 29a.Bienal, uma obra de conotação opinativa pessoal, onde exibe a sua própria pessoa, com armas, de fogo e branca, apontadas para algumas pessoas do conhecimento público nacional e internacional, líderes governamentais, figuras da política mundial, como por exemplo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o atual presidente Luiz Inacio da Silva, na constituição de um ato criminoso hediondo.


Digo com pesar, porque eu lamento profundamente que alguns artistas, ainda pensem que, pelo fato de serem artistas, tudo podem fazer, sem pensar que, o artista não é um julgador do mundo e das pessoas que vivem nele, ainda que sejam atingidas de alguma forma por suas
ações, como todo mundo.



Expressar indignação com a forma como somos governados, é normal,
natural, visto que sabemos que há realmente injustiça, isto existiu e existe em toda a forma de governo já criada, todavia, expressar esta indignação apresentando a violência como forma
de protesto, para mim, é inadmissível. Sou alguém que sabe e sempre soube que a sabedoria vence a força. Mas os povos, se estão assim, massacrados como se sentem, e como vemos, é porque não entendem isto. E a massa no geral, sofre. E sofre em todo o mundo.

As opiniões sempre diferem. Pela mesma razão, os artistas e indivíduos da sociedade que desejam liberdade de expressão para si, também devem compreender que esta expressão não deve significar afronta, pois, nem todos têm a mesma formação e igualmente têm o direito de ver
as coisas de sua forma e de expressar o que sentem e acreditam, e o que podem, mas não concordar com a forma impactante de alguém expressar uma indignação.

A série 'Inimigos', do artista pernambucano Gil Vicente, é responsável pela primeira grande polêmica da 29ª edição da Bienal.

Se o que desejava era causar impacto, conseguiu, mas vale a pena lembrar que muitos atos como este trazem à História da Arte, a vida ou a morte (simbólica) de um artista ou de um crítico que aprove tal coisa, uma vez que a arte, jamais deve ser usada para este fim. Há formas de se fazer a mesma coisa que Gil desejou, porém, sem tal exposição do impiedoso.
Fico perplexa, como homens que se dizem cultos, e ocupam certas posições no meio artístico, podem achar que não tem nada de mais em usar a arte para tal finalidade. Muitos mudaram o
mundo com suas idéias sem chegar a este extremo. Muitos fizeram a humanidade pensar e refletir.

Isto daria muita discussão, mas, sem dúvida, o bom senso deve ser o artigo imperador em todas as situações.


Temos o exemplo de Pablo Picasso que deu seu recado elegantemente com a obra 'Guernica'. Em 1937, durante a guerra civil na Espanha, a cidade de Guernica foi totalmente devastada por um bombardeio de aviões alemães em apoio ao ditador fascista Francisco Franco. O painel 'Guernica', que foi criado para a Exposição Internacional de Paris no mesmo ano, é a reação do mestre Picasso a tal tragédia. Ao ser indagado por uma autoridade sobre quem o havia feito (o painel), Pablo disse firmemente: _ Vocês fizeram isto.


Na obra de Gil Vicente, que lastimo chamar de 'arte', o próprio Gil indentifica cada personalidade do cenário político e religioso mundial e em um dos seus trabalhos, aponta uma arma de fogo para a cabeça do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que tem as suas mãos amarradas e a expressão de quem espera não receber as balas em sua cabeça, mas está cônscio de que não tem como lutar, e Lula, que tem sua cabeça pendida para a posição de degolamento, aguardando com pavor, o golpe que cortará sua garganta, impiedosamente.

Infeliz...uma criatividade muito infeliz. Uma inspiração, digo, até, perigosa.



O fim dos líderes, se desejou isto retratar, poderia ter sido retratado de outra forma.


É certo que homem domina homem para o próprio prejuízo, uma vez que o ajuste de contas sempre vem, ainda que, pelo Deus que os céticos não reconhecem, mas demonstrar desta maneira, tornando-se até, quem sabe, o líder não desejado de alguns que, quem sabe o que se passa na cabeça de cada ser pensante, que seguiriam idéias justiceiras como esta.


Que diga o artista...Tendo tido a intenção, ou não, foi retratada a violência como forma de resolução.
Foi assim. Tal como qual. Uma mensagem de 'morte aos canalhas, morte aos líderes governamentais, religiosos, etc...', pensamento que não devemos adotar, pelo nosso próprio bem.



Já disse...a sabedoria sempre venceu a força...a questão é que nem sempre uma nação tem um povo sábio. Se bem que, de vez em quando eles (os povos) sabem o que significa a palavra 'IMPEACHMENT'. Vide no Rio de Janeiro, há nem tanto tempo atrás...Não foi preciso degolar Fernando Collor de Mello ou portar cartazes demonstrando a vontade de cometer o crime ou como fazê-lo. Mesmo que sejam 'simbolismos artísticos'.


Um artista não deve fazer isto. Está se valendo da condição de artista para fazer algo reprovável em alto grau, uma manifestação, que levaria um cidadão comum a um processo ou à cadeia. Este é o argumento final. Porque nós, o público, sabemos a resposta. Não sabemos??

Imagine...coloque imagens como estas em qualquer lugar público e assine, não sendo um 'Gil Vicente', para ver como acabará...com certeza, ou processado ou preso!

Pessoalmente, achei uma infelicidade, tanto a atitude de Gil, quanto as declarações de outro artista Nuno Ramos, também escritor e autor da obra 'O pão do Corvo' que investiu contra a atitude da Ordem dos Advogados do Brasil por condenar e julgar uma ‘afronta a paz social’ a obra do referido autor, Vicente, declarando que ‘nem Bush faria isso.’, querendo dizer que nem Bush, sendo como é de conhecimento público, impediria o artista plástico de apresentar este ‘vandalismo artístico’ num evento público aberto a todas as idades. A própria obra de Vicente é uma afronta a paz social. Contraditório, não? O feitiço virado contra o feiticeiro?

Quem é Gil Vicente, para garantir que amanhã ou depois, alguém não se espelhará em suas obras, como tantos outros doidos já se espelharam, acabando com a vida de famosos e até de pessoas inocentes?

Lamentável a declaração de apoio...

Sinceramente, não sei realmente, qual seria a atitude de George Bush, mas eu e o mundo sabemos, que Bush não mediu esforços para plantar a violência, a opressão, a invasão aos direitos governamentais e civis, culturais, sociais e religiosos, de muitas nações do mundo.
E sabemos sim, que ele não concordaria de forma branda com uma exposição de sua imagem ao público, sendo morto, seja por um americano, por um iraquiano, ou de outro de uma etnia qualquer.

Outros como ele, e anteriores a ele, dividiram o mundo de tal forma, que hoje vemos os resultados, quando pessoas de culturas e propriedades distintas, vêm, ao ocidente, na razão de praticar a 'sua justiça', segundo as suas opiniões e seus valores étnicos e pessoais. E assim, sofremos todos. Em todas as partes do mundo.

É a violência combatida com a violência.

Certamente, Nuno, saiba, Bush faria coisa pior... Pelo petróleo, alegando outras razões, ele fez sim, coisa muito pior. Trouxe transtornos para o Oriente Médioe para o Ocidente...
Trouxe para a sua própria nação, e, quem pagou foi o povo, os inocentes, que talvez, nem estivessem aí para a política ou para a religião.

Uma forma de vandalismo...A arte e cultura usada como forma de vandalismo ou de mais promoção! E a polêmica lhe garante o sucesso! Sucesso para ele e a Bienal...sempre há uma polêmica na Bienal...é a forma de garantir público num país onde as pessoas em sua maioria colocam a sobrevivência acima da cultura...E apesar de culta, eu nem as culpo...

Como disse, Gil está se valendo da condição de artista para fazer algo promocional e desagradável, uma manifestação absurda, que levaria um cidadão comum a um processo ou à cadeia. Sinto muito, mas é.

A comparação justa do jurista Ives Gandra Martins é perfeita! Tenho certeza que Gil Vicente, não gostaria de ver sua própria mãe retratada num prostíbulo para demonstrar numa qualquer obra de arte com liberdade expressionista, a desigualdade social.

Dano moral, certamente, aos que estão expostos nesta infeliz peça, chamada de arte... Sinto aos que provavelmente não esperam outra atitude de um artista plástico, que se fez um deus (com minúscula mesmo...neste caso), porém eu, Luísa Artèsa, como pessoa e como artista, desaprovo firmemente que tenha-se que agredir desta forma a governantes, a sociedade e a opinião pública. Nem mesmo aqueles que podemos considerar inimigos. Digo e repito: sabedoria e argumento, dá muito mais resultado que isto. Lute de forma limpa e honrosa. Mostre sua indignação de forma limpa e honrosa.

Posso entender a indignação do artista Gil Vicente a respeito de alguns pontos sobre a política brasileira, a desigualdade social, e outros fatores que afetam ao nossos próximos e que nos afetam pessoalmente, porém de forma alguma entendo, que para demonstrar a nossa indignação, tenhamos de portar uma atitude agressiva, deselegante, e até de certa forma perigosa, visto que não sabemos o que pode surtir na cabeça de determinadas pessoas.

Lembrando que esta própria atitude do artista em questão, tem outros precursores, como Marcel Deschamp, que outrora apresentou numa exposição de arte, um vaso sanitário sujo.


Marcel Duchamp começou sua carreira como artista criando pinturas de inspiração impressionista, expressionista e cubista. Mas não teve tanto destaque quanto o que teve ao expor o urinol.

Se se considera que a característica essencial do Dadaísmo é a atitude antiarte, Duchamp é o dadaísta por excelência do movimento, que, inclusive, diga-se de passagem, foi criado de forma ridícula. E depois disto quantos outros não o seguiram? Houveram quem expusesse fezes de cavalo, urina e outras coisas desagradáveis na intenção de chocar. O importante é causar
ibope!

Deus me livre! Prefiro ser uma artista pouco ou nada conhecida!

Em Bienal passada, de 2006, foram expostas imagens de santos da Igreja Católica com pregos, parafusos, suspensores e outros itens perfurantes e mostrou públicamente como sua obra de arte.

Eu não sou católica, não sou adepta de imagens de santos e outros ícones da igreja. Mas nem por isto, achei artístico, interessante ou bonito, intelectual, grandioso, mexer com os sentimentos de milhares de pessoas que são compartilhadoras da crença.

Se a cada vez que tenhamos divergências, sejam na sociedade ou com os governos, resolvermos levantar como um estandarte a violência, pois para mim, este fato, esta apresentação, é sem dúvida uma forma de violência, jamais teremos paz. Jamais teremos um mundo melhor. Sei que nada neste mundo é justo, e que muitas vezes somos oprimidos, mas não é com o revide, ou expressando algum recriminável sentimento oculto de revide, que certamente que resolveremos,
seja o que for.

Que os que tem consciência daquilo para o qual devemos ter vindo ao mundo, repensem sobre esta exposição acintosa. Nada disto contribuirá para um mundo melhor...isto é fato.


Não se faz algo construtivo com alicerces como este.

O nome de Gil já consta no rol da fama. Não havia necessidade de polemizar deste
jeito...absolutamente desnecessário.


Luísa Artèsa.

*** artista não tão conhecida, mas que não pretende ser famosa às custas de ser mais uma ' criatura maldita' na História da Arte Contemporânea.

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