The Brazilian Daily Artist

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Sunday, November 02, 2008

MEMÓRIAS DA PEQUENA DESENHISTA _ CAP.3



Memórias da Pequena Desenhista _ cap.3

"CONFLITOS E FUGAS"

A noite chegou e uma chuva fina caía. Meu pai já estava por voltar.
Minha mãe, falava com minha avó, Aurora, a mãe de meu pai, e pela conversa delas, eu já sabia: uma noite de chatices me esperava. Fui para o quarto e sentei em frente a escrivaninha. Eu olhava meio pensativa para uma estante de madeira grande e patinada de marfim, com decalques de desenhos animados conhecidos. Lembro-me de gostar muito de alguns em especial, como de um urso, e de um personagem de Hanna Barbera, a Penélope Charmosa. Havia um decalque dela na estante em seu carrinho cor-de-rosa, com maquininhas automáticas de passar batom, rouge e pó. Muito engraçado...

Mas meu coraçãozinho já afligia na espera...eu sabia que teria uma noite desagradável. Minhas irmãs irritavam...entravam e saíam do quarto, tiravam coisas do lugar, disputavam brinquedos. Eu precisava me ocupar, fazer algo...vou ler, pensei. Eu tinha uma coleção do Tesouro da Juventude...deixe-me ver o que ainda eu não tinha lido..._pensei.Porém, minhas irmãs entravam e saíam do quarto...não conseguiria ler em paz. Resolvi desenhar mesmo...ao abrir a gaveta, vi que tinha uma aquarela...fui até a cozinha, enchi um vasilhame de água, e levei para a minha escrivaninha. Preparei as folhas, o pincel de pêlo de marta...de repente olhei e falei a mim mesma..._de marta, não! Não é uma boa idéia na água...deve ter algum de pelo sintético...revirei a gaveta, e lá no fundo encontrei um de cabo vermelho e pelo sintetico. Agora, a inspiração...era só o que precisava...Comecei a pintar um jardim...daqueles dos livros em que via Monet...mas só que no lugar de ninféias...eu enchia de amapolas...amapolas rubras, matizadas de alaranjado...folhas verdes do escuro ao claro. Muitas muitas amapolas, sob um céu mesclado de rosa...gostava quando via o céu com nuvens róseas...nuvens com as bordas incandescentes no meio do azul que lhe servia de fundo...Elas continuavam entrando e saindo até que uma delas, Moira, derrubou toda a água de meu vasilhame, ao tentar atirar uma boneca em Claure, a outra...A menor começa a chorar e minha mãe entra no quarto...e gritos, e gritos, chinelos, e tudo vira um inferno.E nem eu que fui a prejudicada fico ilesa...cada vez entendendo menos a minha mãe, eu já imaginava o que viria quando meu pai chegasse. Enquanto o terceiro conflito mundial irrompia no meu quarto, eu fui para a janela da sala. Deitava o corpo no assento do sofá e colocava os pés no parapeito da janela, e ficava só, mexendo com os dedos brincando de cobrir e descobrir a Lua. A noite clara do luar, era um bálsamo para mim...o vulto do pé de abricó...a vontade de estar longe dali, na casa de meus avós. Só lá eu me sentia bem. Só lá eu me sentia em paz.
Apesar dos gritos e confusões, eu acabei cochilando e dormi. Lembro-me de ter sido acordada com meu pai dizendo que era um absurdo eu estar deitada naquela posição e dormindo, e nenhum adulto na casa ter visto, e me reacomodado.Meu pai me levou pra cama, me ajeitou e cobriu. O falatório irrompeu agora na cozinha, e eu nem quis mais ouvir...deixei-me pegar no sono. Era melhor acordar no dia seguinte sem a continuação da batalha em meus pensamentos...

09:00 do dia seguinte...
Havia música na sala. Meu pai ouvia Maísa. Lembro de achar Maísa depressiva...sofrida.Mas gostava da voz dela. Eu imaginava, criança, que ela era uma mulher que tinha se enfadado com as pessoas...e anos depois eu vi que não estava errada em minha percepção infantil...o que me fazia espantar-me com a capacidade de entendimento e raciocínio que eu tinha mesmo criança.Mas só não havia ainda sacado que mesmo cheia da incompreensão das pessoas, ela ainda provavelmente sofria pela falta delas... Ou pelo menos pela falta das que lhe eram boas...mas tirei logo aquilo do meu pensamento.

Eu tinha este sentimento de enfado das pessoas a minha volta. Sentia-me ali um peixe fora da água...Acordei e de pijama ainda fui a sala. Meu pai fumava na janela de frente para o abricozeiro. O cheiro de pão vindo da padaria me dava fome. Disse um "oi" para o meu pai e fui lá na cozinha atrás de minha avó paterna. Minha vó paterna era uma mulher misteriosa para mim...estava sempre calada. Pouco que falava e era dar um sorrisinho, falar umas coisinhas carinhosas e calar-se. E sempre depois de cada afazer doméstico, ficava sentada num sofá, como uma estátua.
Parecia uma daquelas efígies egípcias, sentadas, imóveis em seus tronos. Sem nada dizer só mesmo dando um sorrisinho, ela trouxe uma cumbuca de mingau de arroz com canela. Ela punha muita canela. sabia que eu gostava. Minha mãe apareceu na cozinha. Como sempre eu a olhava e nem muita coisa dizia. Aquele jeito dela sempre resolver as coisas no grito e nas artimanhas de falar dos outros ou jogar armadilhas, o chamado verde para colher, me irritava.
Eu sentia que minha mãe tinha algum problema comigo...parece que ela presentia que eu não aprovava o comportamento dela, que eu não aprovava o que ela fazia, a mania de difamar àquele que não fizesse a vontade dela. Este jeito dela para comigo, e meu para com ela duraria uma vida inteira...mas eu nunca imaginaria que chegasse ao ponto que chegou. Mas isto é algo mais para a frente...muitos anos ainda passariam na minha vida...e na dela também.


(continua)


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