The Brazilian Daily Artist

Sunday, November 02, 2008

CAMINHOS INDELÉVEIS _ CAP.4 _ POR LUÍSA ARTÈSA


"Caminhos Indeléveis" _ cap.4

"SURGEM AS COMPENSAÇÕES"

Ao chegar no ambulatório, a menina estava sentada na cama, com as perninhas esticadas. O antibiótico administrado de oito em oito horas havia dado resultados positivos, era evidente que o medicamento reagia porque o ferimento de Mahrula mostrava uma surpreendente melhora.Assim que me viu cobriu os olhos com o antebraço, mas abriu um largo sorriso que não podia deixar de comove. Ela tinha gostado de mim. Eu fiquei muito gratificada com isto porque segundo Zeeka, Mahrula era um bichinho assustado que não permitia nenhuma forma de contato mais próximo, às vezes para tratá-la, os enfermeiros tinhas problemas pois debatia-se e chorava, gritando e só o cansaço vencia o comportamento arredio da pequena. Quando calma e só, ficava horas olhando para o teto com o dedo na boca. Fui lavar minhas mãos, o calor já começava a dar seus ares, e podíamos ouvir cigarras... Pela porta lateral entrou um homem, mas eu não me virei para olhar. Dei alguns pasos em direção ao lavabo quando o ouvi dizer:

_Você aí! _ Continuei em direção ao lavabo achando que não era comigo, mas ele repetiu o chamado e então soube que era mesmo comigo...

_Você aí, de trança! _ Era comigo mesma...dei uma brecada súbita e me virei em direção a ele._Precisa de ajuda?
Ele me olhou, levantando as sobrancelhas e disse meio irônico:_Não, eu te chamei porque estou indo para o bar e queria companhia para beber.

Para não perder o hábito de devolver as ironias que me são dirigidas, olhei para ele com uma das sobrancelhas apenas de pé, e arrematei:
_Ah...puxa...não vai dar...Você é lindo, a companhia seria ótima, mas eu não sou muito chegada a bares...botecos não fazem meu gênero...mas, obrigada assim mesmo.

Ele olhou duro desta vez e disse..._Engraçadinha...é das minhas não é? Ironia por ironia...faça logo o que tem de fazer, lavar suas mãos seja lá o que for, e volte. Preciso da sua ajuda aqui.
Virei-me imediatamente em direção ao lavabo.
O sabonete de benjoim já podia ser sentido antes mesmo de eu abrir a porta. Abri a torneira e olhei-me no espelho.Por um segundo imaginei que se não tivesse me metido naquela aventura provavelmente estaria em minha terra,em minha casa, aborrecendo-me. Então, eu vi que eu tinha feito uma boa escolha...ali eu estava aprendendo coisas que eu sabia, seriam úteis por toda a minha vida.Enxuguei as mãos e voltei para o ambulatório.
O médico estava lá, parado olhando para a porta do lavabo com uma expressão de impaciência. Parei diante dele e já fui disparando:_Aqui estou, em quê eu posso ajudá-lo?
_Preciso que me ajude a mover um paciente da cama e levá-lo até o quarto de banho.Regule a água fria, preciso baixar a temperatura do corpo dele.Vamos lá.Imediatamente, o segui até o leito do paciente.
Era um ancião frágil, franzino, vestido com um dos aventais já remendados. A cabeça trazia um ferimento, como se tivesse sido uma bala de raspão, mas não necessáriamente..._ O que foi isto? - perguntei ao doutor.
_ Levou um golpe na cabeça, numa briga no vilarejo.A história nem era com ele...mas estava no meio dos brutamontes.
_Coitado...O médico me olhou por um instante, depois deu-me um tapinha no braço, como se eu fosse sua parceira de pôquer, no que de imediato se tocou e resvalou:
_Meu Deus, desculpe...às vezes esqueço que tem mulheres aqui.Ele pode não ter percebido...mas aquela frase para mim vinha com diversas coisas interessantes subentendidas.Não sei porque, mas ali, relaxei com ele. Não oferecia perigo para mim.Gostei dele.
_ Não se preocupe...uma mulher que vem para um lugar deste não espera receber beijos e rosas.
Sem querer, havia dado a ele uma resposta tão reveladora quanto a dele. Inteligente, tanto quanto eu, percebeu algo velado nas entrelinhas...Ao mesmo tempo que tomava nos braços o velho contundido, fitava-me fixamente no rosto, parando o olhar bem dentro do meu, com uma expressão interrogativa.
_Sem comentários...
_Acho melhor...
Também não comentarei que nem sequer percebeu que tem mulheres a sua volta...Ele sorriu um sorriso de Mona Lisa, e me pediu para acompanhá-lo, não sem antes apanhar um novo avental limpo, e alguns apetrechos, assim como uma toalha. No quarto de banho, ele me pediu para colocar uma cadeira embaixo do chuveiro, e assim que o atendi, ele colocou cuidadosamente o velho. Eu só o observava, calada...era um homem bem disposto e forte. Abrimos o chuveiro, e começamos a banhar o velho.Ele ficava inquieto, alheio ao nosso tratamento,pela febre alta,lembrei de buscar o sabonete de benjoim...fui até a pia do lavabo e o trouxe, e com a ajuda de uma gaze, fui, inclusive lavando o ferimento dele, que jazia num imenso "galo" na testa.
Ao terminarmos, enxuguei-o cuidadosamente porém, de forma ligeira, e então pusemos o avental para levá-lo direto a cama. O rosto do médico estava banhado por um jato de água que o havia atingido e pingava...sem pensar muito na hora, instintivamente, passei a mão na segunda toalha, ainda em desuso, e o enxuguei.
_Boa menina. _ me disse.
_Desculpe! _ falei _ foi um ato instintivo.
Aquele contato desajeitado, não significava nada para mim.Estava tão farta das pessoas, que eu sabia que cedo ou tarde encontraria uma forma de me distanciar dele. Mas não ainda. De alguma forma parecia que nós dois bailávamos a mesma música, ambos irônicos, mas responsáveis. Ativos demais, quase desesperados...úteis.
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