The Brazilian Daily Artist

Tuesday, November 11, 2008

CAMINHOS INDELÉVEIS _ CAP .5


'DRIBLANDO ENCRENCAS'

Decidi não prestar muita atenção nele. Eu havia atravessado o mundo para fugir de problemas. Não estava disposta a cometer o mesmo erro. Precisava resistir a tudo o que pudesse a curto, médio ou longo prazo. E nisto eu havia ficado uma exímia conhecedora. Eu me posicionava então, como podia, podando todas as possibilidades de encrencas futuras. Ele não parecia representar uma encrenca, necessáriamente. Mas mesmo assim, estava nas minhas prioridades restritivas.
Assim que o ancião foi acomodado de novo no leito, fui recolher toalhas, avental, e guardar os apetrechos utilizados. Quando retornava, o médico estava de pé no meio do ambulatório e ficou sem dizer palavra, parado, olhando para mim. Muito seca, perguntei:
_Ainda precisa de alguma coisa? Estou indo ver a pequena Maruhla...
Ele olhou para trás instintivamente, em direção ao leito da pequena, e voltou-se em direção à mim._Por falar nela tenho de ver o estado da perna...
_Está reagindo bem aos antibióticos..._Tem cuidado dela nestes dois dias? Ela não te deu trabalho? É uma criança problemática, arredia...
_ Sim, eu sei, mas tivemos um bom contato. Acho que já ganhei a sua confiança.
Ele passou os dedos entre os cabelos lisos e escuros, e levantou as sobrancelhas grossas e bem desenhadas. Eram sobrancelhas bonitas.
_É, eu acredito...parece não ser muito difícil confiar em você. O pouco que observei, revelou-me que você é uma pessoa meiga. Tem tato com as pessoas. O que fez você vir para cá? Por que aceitou o trabalho voluntário? A vida aqui é dura, moça. E vivemos sob tensão.
_ É uma longa história, um dia eu conto. Não é uma coisa que me agrade falar. Quanto à ter vindo não é surpreendente. Sempre fui uma pessoa desprendida e abnegada, sempre me importei com coisas que realmente valessem a pena. E estas pessoas valem. E precisam. E eu também. Quanto a viver sob tensão...(sorri)...Tive um longo e eficaz treinamento.
Percebi que ele havia ficado curioso. Mas encerrei a conversa por ali. Para quem queria driblar encrencas, eu já estava me extendendo muito. Era hora de mudar de caminho.
_ Bom _ disse eu, amontoando a roupa recolhida nos braços. _ Vou ver a menina. Até.
_ Até.
Como sempre que me avistava chegar perto, a pequena Mahrula cruzou os braços sobre o rosto. mas o pequeno sorriso se via por baixo dos mesmos. Ela gostava de mim. Aproximei-me da cama, e disse:
_Oi, querida...nem sei se me entende...mas acho que sim. Vou levar estas coisas lá para dentro, e volto aqui, certo?Arregalei os olhos fazendo uma cara engraçada para ela e disse: _ E quando eu voltar não quero ver dedos na boca, ok??
A menina, deu um pequeno pinote, e pela primeira vez, ouvi algum som emitido por ela. Ela gargalhou. Ganhei o meu dia...
A lavanderia ficava no outro pavilhão. Alguns nativos trabalhavam na lavanderia, e para minha surpresa, havia uma passadeira a vapor. Era um lugar úmido e quente. Deixei as roupas dentro de um enorme recipiente, dei uma olhada geral pelo ambiente, e voltei para o ambulatório.Encontrei Zeeka no meio do caminho.Abriu um generoso sorriso!
_ Bwana! _ gritou ele, entusiástico!
_ Como passou a noite? Devolvi o sorriso e respondi com o mesmo entusiamo.
_ Bem, Zeeka, consegui dormir bem. Apesar dos mosquitos!
Ele riu. Juntos, fomos para o ambulatório. Fui direto ao leito de Maruhla. desta vez ela não estava com o dedo na boca. Aí, foi que eu tive a confirmação de que ela me entendia. Ela entendia o português.Fui ajeitando seu travesseiro enquanto falava. Zeeka estava parado do outro lado da cama, de frente para mim.
_ Veja, Zeeka, Mahrula não coloca mais o dedo na boca! Está ficando uma moça civilizada! Zeeka apertou o dedão do pé da menina e brincou: _ Muito bom!...Estava vendo a hora que colocaria este dedão feio na boca também.
_ Ora, Zeeka, o dedão dela não é feio!_É sim! _ insistiu ele.
Mahrula puxou o lençol e cobriu a cabeça, envergonhada.
_ Mahrula, vou trabalhar. Daqui a pouco o doutor virá para ver a sua perninha. Quero que seja comportada, certo? Ela levantou a cabeça sob o lençol e deu uma risada. Aquilo significava que ela obedeceria.
De repente, ouvimos um som que nos chamou a atenção. Uma mulher sentada a beira da cama, havia vomitado no chão.
Corri para acudir, e Zeeka foi em seguida. A mulher, uma negra de seus 25 anos aproximadamente, tinha uma coloração amarelada que não era comum. O médico veio ao nosso encontro, e solicitou à equipe responsável pela limpeza que limpasse imediatamente o vômito no chão. Foi prontamente atendido por um dos nativos que ajudava na manutenção do ambulatório.Tão logo o rapaz limpou a poça, o médico ajudou a mulher a se deitar, tomou da lanterna e verificou suas órbitas, e depois a pulsação.
_Como está este estômago, senhorita? _ perguntou em dialeto.
A mulher transpirando e sôfrega, informou que estava sentindo dores na boca do estômago. Afastou-se da cama e chamou um outro residente. Falavam-se entre eles e olhavam para a mulher ocasionalmente.
Segurei a mão dela, mole, fria. Perguntei em português, qual a enfermidade dela, mesmo sabendo que ela poderia não me compreender.E não compreendeu mesmo...Fui até o prontuário preso na cama, mas ele não estava lá. Olhei direto para o médico, e eis que ela estava nas mãos dele.Devagar, como um felino, fui aproximando-me deles. O outro médico já se retirava e eu fiquei a sós com o médico.
_Desculpe...qual o seu nome, eu não consegui ler no seu jaleco. _disse-lhe.
_Nem vai...aqui não tenho jalecos bordados...são artigos de luxo...no máximo são carimbados. mas este aqui não tem. O meu nome é Abel.
_É um bonito nome. E lembra uma bonita história.
_Bonita não, triste.
_Bonita. Pela fidelidade do Abel protagonista. Por sua mansidão e respeito.
_Não tinha visto por este lado.
_É...eu costumo ver lados que as pessoas não vêem._Não entendi...
_Esquece...estou divagando..._sorri._O que houve com aquela mulher? Fui ler o prontuário, mas você está com ele.
_Aquela mulher tentou o suícidio. Ela queria tanto se matar que não tendo com o quê fazê-lo, misturos produtos de limpeza e tomou. Por pouco não sobrevive mesmo...mas enfim, a vizinha chegou logo em seguida e ao ver o que ela tinha feito, fez os homens da aldeia trazê-la para cá. Mas seu estado ainda inspira cuidados. Eventualmente ela ainda manisfestará náuseas e vômitos. Mas vai viver...eu espero.
_Ninguém perguntou o porquê?

_Por quê o quê?
_Qual a razão dela ter tentado o suicídio.
_Tenho uma pista...estava grávida de dois meses. Encontrou o cara errado.
Olhei para a mulher e tive uma sensação de imensa piedade. Pensei em tantas e tantas mulheres...Pensei em todas. Pensei nas que não se iludem mais...e nas que ainda se iludem...não por serem tolas...mas porque sempre têm a esperança de que aquele com quem se envolvem têm responsabilidade ou lhes têm amor.
Nem dez minutos da comoção pelo vômito da mulher, e uma voz infantil começou a gritar. Embora houvesse outra criança no pavilhão, não sei porque achei que era Mahrula. E eu estava certa. Corremos. O dia hoje estava decididamente movimentado...

Monday, November 03, 2008

NOITE DE AUTÓGRAFOS



Foi nesta segunda-feira a noite de autógrafos de Carlos von Schmidt no lançamento de seu novo livro, "Além do Sol Nascente" na Livraria da Vila, espaço literário que eu recomendo a todas as idades!



Eu, Luísa Artèsa, com exemplares do novo livro.



Carlos Von Schmidt, e eu, Luísa Artèsa.

Sunday, November 02, 2008

CAMINHOS INDELÉVEIS _ CAP.4 _ POR LUÍSA ARTÈSA


"Caminhos Indeléveis" _ cap.4

"SURGEM AS COMPENSAÇÕES"

Ao chegar no ambulatório, a menina estava sentada na cama, com as perninhas esticadas. O antibiótico administrado de oito em oito horas havia dado resultados positivos, era evidente que o medicamento reagia porque o ferimento de Mahrula mostrava uma surpreendente melhora.Assim que me viu cobriu os olhos com o antebraço, mas abriu um largo sorriso que não podia deixar de comove. Ela tinha gostado de mim. Eu fiquei muito gratificada com isto porque segundo Zeeka, Mahrula era um bichinho assustado que não permitia nenhuma forma de contato mais próximo, às vezes para tratá-la, os enfermeiros tinhas problemas pois debatia-se e chorava, gritando e só o cansaço vencia o comportamento arredio da pequena. Quando calma e só, ficava horas olhando para o teto com o dedo na boca. Fui lavar minhas mãos, o calor já começava a dar seus ares, e podíamos ouvir cigarras... Pela porta lateral entrou um homem, mas eu não me virei para olhar. Dei alguns pasos em direção ao lavabo quando o ouvi dizer:

_Você aí! _ Continuei em direção ao lavabo achando que não era comigo, mas ele repetiu o chamado e então soube que era mesmo comigo...

_Você aí, de trança! _ Era comigo mesma...dei uma brecada súbita e me virei em direção a ele._Precisa de ajuda?
Ele me olhou, levantando as sobrancelhas e disse meio irônico:_Não, eu te chamei porque estou indo para o bar e queria companhia para beber.

Para não perder o hábito de devolver as ironias que me são dirigidas, olhei para ele com uma das sobrancelhas apenas de pé, e arrematei:
_Ah...puxa...não vai dar...Você é lindo, a companhia seria ótima, mas eu não sou muito chegada a bares...botecos não fazem meu gênero...mas, obrigada assim mesmo.

Ele olhou duro desta vez e disse..._Engraçadinha...é das minhas não é? Ironia por ironia...faça logo o que tem de fazer, lavar suas mãos seja lá o que for, e volte. Preciso da sua ajuda aqui.
Virei-me imediatamente em direção ao lavabo.
O sabonete de benjoim já podia ser sentido antes mesmo de eu abrir a porta. Abri a torneira e olhei-me no espelho.Por um segundo imaginei que se não tivesse me metido naquela aventura provavelmente estaria em minha terra,em minha casa, aborrecendo-me. Então, eu vi que eu tinha feito uma boa escolha...ali eu estava aprendendo coisas que eu sabia, seriam úteis por toda a minha vida.Enxuguei as mãos e voltei para o ambulatório.
O médico estava lá, parado olhando para a porta do lavabo com uma expressão de impaciência. Parei diante dele e já fui disparando:_Aqui estou, em quê eu posso ajudá-lo?
_Preciso que me ajude a mover um paciente da cama e levá-lo até o quarto de banho.Regule a água fria, preciso baixar a temperatura do corpo dele.Vamos lá.Imediatamente, o segui até o leito do paciente.
Era um ancião frágil, franzino, vestido com um dos aventais já remendados. A cabeça trazia um ferimento, como se tivesse sido uma bala de raspão, mas não necessáriamente..._ O que foi isto? - perguntei ao doutor.
_ Levou um golpe na cabeça, numa briga no vilarejo.A história nem era com ele...mas estava no meio dos brutamontes.
_Coitado...O médico me olhou por um instante, depois deu-me um tapinha no braço, como se eu fosse sua parceira de pôquer, no que de imediato se tocou e resvalou:
_Meu Deus, desculpe...às vezes esqueço que tem mulheres aqui.Ele pode não ter percebido...mas aquela frase para mim vinha com diversas coisas interessantes subentendidas.Não sei porque, mas ali, relaxei com ele. Não oferecia perigo para mim.Gostei dele.
_ Não se preocupe...uma mulher que vem para um lugar deste não espera receber beijos e rosas.
Sem querer, havia dado a ele uma resposta tão reveladora quanto a dele. Inteligente, tanto quanto eu, percebeu algo velado nas entrelinhas...Ao mesmo tempo que tomava nos braços o velho contundido, fitava-me fixamente no rosto, parando o olhar bem dentro do meu, com uma expressão interrogativa.
_Sem comentários...
_Acho melhor...
Também não comentarei que nem sequer percebeu que tem mulheres a sua volta...Ele sorriu um sorriso de Mona Lisa, e me pediu para acompanhá-lo, não sem antes apanhar um novo avental limpo, e alguns apetrechos, assim como uma toalha. No quarto de banho, ele me pediu para colocar uma cadeira embaixo do chuveiro, e assim que o atendi, ele colocou cuidadosamente o velho. Eu só o observava, calada...era um homem bem disposto e forte. Abrimos o chuveiro, e começamos a banhar o velho.Ele ficava inquieto, alheio ao nosso tratamento,pela febre alta,lembrei de buscar o sabonete de benjoim...fui até a pia do lavabo e o trouxe, e com a ajuda de uma gaze, fui, inclusive lavando o ferimento dele, que jazia num imenso "galo" na testa.
Ao terminarmos, enxuguei-o cuidadosamente porém, de forma ligeira, e então pusemos o avental para levá-lo direto a cama. O rosto do médico estava banhado por um jato de água que o havia atingido e pingava...sem pensar muito na hora, instintivamente, passei a mão na segunda toalha, ainda em desuso, e o enxuguei.
_Boa menina. _ me disse.
_Desculpe! _ falei _ foi um ato instintivo.
Aquele contato desajeitado, não significava nada para mim.Estava tão farta das pessoas, que eu sabia que cedo ou tarde encontraria uma forma de me distanciar dele. Mas não ainda. De alguma forma parecia que nós dois bailávamos a mesma música, ambos irônicos, mas responsáveis. Ativos demais, quase desesperados...úteis.

MEMÓRIAS DA PEQUENA DESENHISTA _ CAP.3



Memórias da Pequena Desenhista _ cap.3

"CONFLITOS E FUGAS"

A noite chegou e uma chuva fina caía. Meu pai já estava por voltar.
Minha mãe, falava com minha avó, Aurora, a mãe de meu pai, e pela conversa delas, eu já sabia: uma noite de chatices me esperava. Fui para o quarto e sentei em frente a escrivaninha. Eu olhava meio pensativa para uma estante de madeira grande e patinada de marfim, com decalques de desenhos animados conhecidos. Lembro-me de gostar muito de alguns em especial, como de um urso, e de um personagem de Hanna Barbera, a Penélope Charmosa. Havia um decalque dela na estante em seu carrinho cor-de-rosa, com maquininhas automáticas de passar batom, rouge e pó. Muito engraçado...

Mas meu coraçãozinho já afligia na espera...eu sabia que teria uma noite desagradável. Minhas irmãs irritavam...entravam e saíam do quarto, tiravam coisas do lugar, disputavam brinquedos. Eu precisava me ocupar, fazer algo...vou ler, pensei. Eu tinha uma coleção do Tesouro da Juventude...deixe-me ver o que ainda eu não tinha lido..._pensei.Porém, minhas irmãs entravam e saíam do quarto...não conseguiria ler em paz. Resolvi desenhar mesmo...ao abrir a gaveta, vi que tinha uma aquarela...fui até a cozinha, enchi um vasilhame de água, e levei para a minha escrivaninha. Preparei as folhas, o pincel de pêlo de marta...de repente olhei e falei a mim mesma..._de marta, não! Não é uma boa idéia na água...deve ter algum de pelo sintético...revirei a gaveta, e lá no fundo encontrei um de cabo vermelho e pelo sintetico. Agora, a inspiração...era só o que precisava...Comecei a pintar um jardim...daqueles dos livros em que via Monet...mas só que no lugar de ninféias...eu enchia de amapolas...amapolas rubras, matizadas de alaranjado...folhas verdes do escuro ao claro. Muitas muitas amapolas, sob um céu mesclado de rosa...gostava quando via o céu com nuvens róseas...nuvens com as bordas incandescentes no meio do azul que lhe servia de fundo...Elas continuavam entrando e saindo até que uma delas, Moira, derrubou toda a água de meu vasilhame, ao tentar atirar uma boneca em Claure, a outra...A menor começa a chorar e minha mãe entra no quarto...e gritos, e gritos, chinelos, e tudo vira um inferno.E nem eu que fui a prejudicada fico ilesa...cada vez entendendo menos a minha mãe, eu já imaginava o que viria quando meu pai chegasse. Enquanto o terceiro conflito mundial irrompia no meu quarto, eu fui para a janela da sala. Deitava o corpo no assento do sofá e colocava os pés no parapeito da janela, e ficava só, mexendo com os dedos brincando de cobrir e descobrir a Lua. A noite clara do luar, era um bálsamo para mim...o vulto do pé de abricó...a vontade de estar longe dali, na casa de meus avós. Só lá eu me sentia bem. Só lá eu me sentia em paz.
Apesar dos gritos e confusões, eu acabei cochilando e dormi. Lembro-me de ter sido acordada com meu pai dizendo que era um absurdo eu estar deitada naquela posição e dormindo, e nenhum adulto na casa ter visto, e me reacomodado.Meu pai me levou pra cama, me ajeitou e cobriu. O falatório irrompeu agora na cozinha, e eu nem quis mais ouvir...deixei-me pegar no sono. Era melhor acordar no dia seguinte sem a continuação da batalha em meus pensamentos...

09:00 do dia seguinte...
Havia música na sala. Meu pai ouvia Maísa. Lembro de achar Maísa depressiva...sofrida.Mas gostava da voz dela. Eu imaginava, criança, que ela era uma mulher que tinha se enfadado com as pessoas...e anos depois eu vi que não estava errada em minha percepção infantil...o que me fazia espantar-me com a capacidade de entendimento e raciocínio que eu tinha mesmo criança.Mas só não havia ainda sacado que mesmo cheia da incompreensão das pessoas, ela ainda provavelmente sofria pela falta delas... Ou pelo menos pela falta das que lhe eram boas...mas tirei logo aquilo do meu pensamento.

Eu tinha este sentimento de enfado das pessoas a minha volta. Sentia-me ali um peixe fora da água...Acordei e de pijama ainda fui a sala. Meu pai fumava na janela de frente para o abricozeiro. O cheiro de pão vindo da padaria me dava fome. Disse um "oi" para o meu pai e fui lá na cozinha atrás de minha avó paterna. Minha vó paterna era uma mulher misteriosa para mim...estava sempre calada. Pouco que falava e era dar um sorrisinho, falar umas coisinhas carinhosas e calar-se. E sempre depois de cada afazer doméstico, ficava sentada num sofá, como uma estátua.
Parecia uma daquelas efígies egípcias, sentadas, imóveis em seus tronos. Sem nada dizer só mesmo dando um sorrisinho, ela trouxe uma cumbuca de mingau de arroz com canela. Ela punha muita canela. sabia que eu gostava. Minha mãe apareceu na cozinha. Como sempre eu a olhava e nem muita coisa dizia. Aquele jeito dela sempre resolver as coisas no grito e nas artimanhas de falar dos outros ou jogar armadilhas, o chamado verde para colher, me irritava.
Eu sentia que minha mãe tinha algum problema comigo...parece que ela presentia que eu não aprovava o comportamento dela, que eu não aprovava o que ela fazia, a mania de difamar àquele que não fizesse a vontade dela. Este jeito dela para comigo, e meu para com ela duraria uma vida inteira...mas eu nunca imaginaria que chegasse ao ponto que chegou. Mas isto é algo mais para a frente...muitos anos ainda passariam na minha vida...e na dela também.


(continua)


SABENDO COM LUÍSA _ "Além do Sol Nascente"

LANÇAMENTO DO NOVO LIVRO DE CARLOS VON SCHMIDT

Nesta 2ªfeira, 03 de novembro, o curador de arte e escritor Carlos Von Schmidt estará lançando seu mais novo livro "Além do Sol Nascente", livro maravilhoso que já tive o privilégio de ler e que traz muitas curiosidades sobre a cultura japonesa e memórias de suas andanças pelo Japão.

Carlos Von Schmidt é autor de outros livros, entre eles "Dali, Libertino e Surreal" e "Na Cama com Picasso".
A noite de autógrafos será na Livraria da Vila, Alameda Lorena.

Acima, a capa do novo livro de Von Schmidt.

Saturday, November 01, 2008

PROGRAMAÇÃO IMPERDÍVEL NO MASP


NOVIDADES NO MASP

A 32ª mostra de Cinema Internacional no MASP acabou hoje, mas os espetáculos teatrais que começaram em 17 de outubro, vão até o dia 09 de novembro, as sextas e sábados às 20:00 e aos domingos às 17:00.

"MOSCARDA" baseado na obra de Pirandello.

Em cena apenas um ator, uma cadeira e uma história. Estes são os elementos de que se vale o espetáculo para, durante uma hora, contar a história de MOSCARDA, um homem atormentado com descobertas sobre si mesmo. Ao ser alertado pela mulher para um pequeno "defeito" em seu nariz, ele nos coloca diante de uma questão existencial e filosófica: QUEM SOMOS?