The Brazilian Daily Artist

Monday, September 01, 2008

MEMÓRIAS DA PEQUENA DESENHISTA _ CAP.1

"Memórias da pequena desenhista" _ pág.1 _ Luísa Artèsa.

** A MENINA E AS AMAPOLAS **

"Deveriam ser já aproximadamente umas 19:00.

Espalhava uma caixa de giz pastel sobre a mesa onde eu e meu pai estávamos sentados.
Lembro bem do cheiro da noite, daquela noite...A iluminação da rua, gente que passava para lá e para cá, atravessando a rua, mudando de calçada...e outras que próximas a nós, aguardavam de pé lugares vagarem para entrarem no restaurante. Ao fundo, o som de um bem tocado bandoneón...lembro bem, muito bem da música: 'Caminito'.

A memória de uma senhora, usando um vestido de tafetá justo e verde escuro, com pérolas no pescoço e nas orelhas, um mui bem penteado cabelo com travessa de tortuga, as unhas carmim e bem esmaltadas, reluziam a difusa luz do ambiente.
Imaginei o que eu estaria vestindo quando chegasse a idade dela, onde estaria e com quem...mas muito engraçada e espevitada, eu dizia à mim mesma nos pensamentos:

_...Só o vestido...A personalidade? _ Eu tenho a minha! (risos!)
Olhei de novo para a mesa, os bastões dispostos sobre a convidativa toalha de papel, sobre a outra de linho creme, a minha pequena bolsa de cetim cor-de-rosa, que sempre carregava uma grande quantidade de giz em tocos e barras inteiras, esperando pela minha inspiração...

Meu pai, muito alinhado, as abotoaduras de ouro com detalhe de ônix, o anel pesado no dedo anular, me fitava com a tradicional expressão dos pais que já sabem o que seus filhos irão fazer. Dava um terno sorriso e tragava seu cigarro, soltando a fumaça para longe de mim, ao ar da fresca Buenos Aires.

Meus olhos sempre inquietos e observadores, pousavam agora sobre um homem na mesa à frente. Aparentava uns cinquenta e poucos anos, cavanhaque grisalho e olhos escuros, muito calado, quase omisso, alheio ao redor, eventualmente fixando o olhar no tampo da mesa, preocupado sabia Deus com o quê.

Esqueci então eu mesma do mundo à volta, concentrei-me naquele cheiro de noite fresca, o bom ar daquela noite iluminada, e comecei a desenhá-las...nos campos, nas floreiras de janelas das casinhas com jardim, caídas pelo chão, e em pouco tempo os desenhos amontoavam-se na mesa, folhas salpicadas de amapolas vermelhinhas e amarelas...

O cheiro do vinho me dava vontade de sorver um só golezinho, mas o medo de perguntar se eu podia era maior...embora eu tenha a certeza de que meu pai encontraria a forma mais coerente de impedir.

Uma enorme taça de sorvete com calda veio ao meu encontro. O garçon a deixa diante de mim, mas não se afasta sem antes elogiar as minhas amapolinhas...

E se vai...o guardanapo de pano sobre o antebraço, o passo ligeiro em direção a outros clientes.

Olho por cima do ombro de meu pai, que saboreia o vinho devagar, e vejo uma silhueta alta, apressada vindo em direção a ele. Pára junto a cadeira onde está meu pai, dá-lhe uma estapeada gentil nas costas, aperta-lhe a mão em cumprimento, ao mesmo tempo em que sorrindo o sorriso mais alvo e franco do mundo, diz:' _ Olá, pintora das amapolas! Quando fores uma moça, e eu um velho já senil, assim tu serás chamada!'

E eu lhe devolvi o sorriso de sempre. O sorriso de quem, apesar da pouca idade, já sabia que são muito poucas as pessoas em quem nós podemos realmente confiar.



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