The Brazilian Daily Artist

Saturday, September 20, 2008

CAMINHOS INDELÉVEIS" _ PAG.1 _ LUÍSA ARTÈSA


"Caminhos Indeléveis" _ Luísa Artèsa _ pág1.

"MUDANÇA RADICAL"

Houve uma época em que sumi...Eu nunca sabia o que seria do dia seguinte e onde estaria. A única certeza é que estaria longe, e buscando um pouco de paz.
O cansaço do convívio com certas pessoas de meu círculo pessoal, que por uma questão natural e genealógica, eu tinha social e moralmente de "suportar", me levaram a dispensar as convenções. Afinal, quem impôs isto??
Eu então pensava: _ Nem Deus!
O diabo não era um anjo? Não era um filho de Deus, uma criação Dele, e na hora do basta, Ele não o expulsou do paraíso, mandando-o para baixo?? Pois ninguém mais iria me fazer agüentar uma gente tão a ver, e no entanto, tão diferente de mim...afinal, eu era um rio tentando me manter em águas calmas, porém, sempre desaguando no mar revolto e escuro das tempestades imprevisíveis...
Era hora de dar uma de doida e sumir mesmo! A minha sanidade e minha paz de espírito em primeiro lugar! Me dê licença!!
Esta atitude levou-me a descobrir coisas maravilhosas. E a descobrir-me.

Quem sou e o para quê, em fim de contas eu tinha utilidade neste mundo. Descobri que sem lenço e sem documento pode-se fazer coisas inesquecíveis...sem nada dever a quem tem recursos para fazê-lo. O meu primeiro passo era aprender a me despir dos resquícios burgueses, dos meus confortos adquiridos graças aos homens de minha família, que já aquela altura não existiam mais, e por isto mesmo, me manter nela, era algo que já não me cativava.
Eu era um membro da família extremamente racional, às voltas com pessoas completamente emocionais, passionais, tempestivas...de um jeito que por mais que eu tentasse não conseguia ser. Não me fazia bem aquilo.

O básico: três mudas de roupas, duas botas de couro, dois jeans resistentes, uma jaqueta confortável, que não incomodasse no verão e esquentasse no inverno.
Os cabelos longos demais, tinham de viver presos agora. E tudo o mais, eram um recipiente de álcool etílico, para esterilizações de emergência, e profilaxia, uma panelinha de ágata, um isqueiro e outro reserva para o fogo, e de resto, enquanto o meu dinheiro desse, ia levando...e quando não desse mais...todo o know-how adquirido na minha vida até então, todas as habilidades que descobri ter, e as que desenvolvi, e o conhecimento ganho na enfermagem me serviriam. E fui.

Era engraçado o olhar curioso daqueles homens...homens que por um instante dentro daquele avião verde desbotado com idade que remonta a tempos jurássicos, e os quais eu olhava em off, e ficava imaginando, se estariam naquela vida por vontade própria, por pressão da família ou de um terceiro, ou se por não ter outros recursos ou meios de vida. Homens jovens que podiam viver ou não além dos seus 18-24 anos...que poderiam ou não ter de estar em uma situação que interromperia-lhes a vida, assim na flor ainda...alguns que talvez tivessem uma boa vida ao lado de gente boa que lhes amasse e para os quais eles fizessem toda a diferença e falta...não como eu...cujas pessoas tinham conseguido cansar a ponto de nem mais estar me preocupando com isto...afinal, da pessoa que eu mais amava e que realmente me fazia falta, 'ela' já tinha conseguido temporariamente me separar...temporariamente. Porque eu trabalho o inimigo, eu o estudo, e depois, como num sopro apenas...o venço, vendo-o cair vencido pelo seu próprio mal.
Assim agem os justos. Estou sempre para o perdão, e o adversário nunca para receber, pois o orgulho não deixa.
Os meus pensamentos foram dissipados de repente pelo barulho do motor. E decolamos...o mundo lá embaixo se tornava longe do meu alcance...a paisagem menor, cada vez menor. Um pensamento me ocorreu: _minha gaita! Será que eu a tinha trazido??

Chequei de imediato os bolsos externos da mochila de lona e couro, e para a minha alegria, ela, a Blessing cromada estava lá. Um dos bens 'dela', que 'ela' não tocava, mas disputava a posse do objeto comigo, e que eu, em troca de tudo o mais que me pertencia e deixei para 'elas', tinha trazido, pelo menos, comigo. E seria útil como companhia na minha aventura solitária.
Que chegássemos logo...era tudo o que eu queria...mas era uma viagem longa...quando criança imaginava como uma aeronave, avião ou helicóptero, podia transportar tanto peso...e ali eu comecei a ver a maravilha de estarmos todos nós com seus respectivos pesos entre 60 e 90 quilos cada um, uma carga de suprimentos pesada, além de todos os apetrechos necessários e próprios. Enfim, cochilei...já não tinha dormido a noite anterior...

Quando desci do avião, depois da maioria daqueles jovens que apesar de tudo tinham um ótimo bom humor, o solo era tão arenoso, tão seco que senti o solado da bota friccionar o chão. Pensei:
" _É moça...Aqui tu vais comer poeira!..." (risos secretos)
_ "Adeus esmaltes de unha, shampoos cheirosos para cabelos, água de colônia de qualidade" ...ainda bem que conhecia botânica e meu conhecimento na fabricação de perfumes artesanais me serviriam para fazer um aroma melhor que o de feno seco e bosta de animais no sol quente a evaporar...
Devidas apresentações, exames adicionais, inspeção dos lugares, contatos, radiofonia, pronto-socoro, etc...o que poderia ou não fazer, o que deveria ou não experimentar...

E então, fui a enfermaria do acampamento...ao local de administração e divisão de suprimentos...e comecei a ser apresentada gradualmente aos outros voluntários, aos superiores, e aos nativos, da pele escura e ainda mais curtida do sol, de um negro lindo, às vezes âmbar, e às vezes quase azulado,com seus cabelos muitas vezes empoeirados e os pés sempre na maioria sem sapatos e com os calcanhares rachados e grossos de tanta terra.
Uma estranha sensação de paz me sobreveio. Eu, finalmente, estava no meio de pessoas que mereceriam meus cuidados, amor e atenção...tudo o que eu sabia e poderia oferecer. Estes sim, saberiam, em suas dores e privações, dar o real valor ao presente que lhes seria ofertado.

Os olhos negros, com órbitas amareladas e vasos sanguíneos notáveis, de expressão amiga e curiosa, me denunciaram isto.
No pequeno postinho onde cuidavam de alguns dos nativos, velhos e crianças, com toda a sua forma improvisada, mas, no entanto, eficaz, eu conheci a Mahrula. Num espaço aberto da proteção telada de seu leito, eu via seu rosto. Me aproximei de sua cama, cuja plaqueta de identificação tinha registrado o nome dela...O meu lado maternal já chamava, e o meu lado altruísta e de ação a tomar, foram idem até ela. Olhões espertos, mas tristes me fitaram meio cabreiros...mas sorriu e tampou os olhos com o antebraço, mostrando timidez.
A perna direita, fina e de pele ressecada, tinha uma ferida. O quadro era preocupante, mas não desesperador. O estágio da inflamação bem desagradável ao olhar, um certo cheiro incomodativo se podia sentir subitamente. Em seu leito havia um cortinado de tela fina, como um filó, para evitar o ataque das moscas, muito comuns no lugar, que sobrevoavam eventualmente o local, apesar das janelas com coberturas. Um inseto destes, numa ferida como aquela, é um problema.
A pequena angolana tirou o braço dos olhos e me olhou mais uma vez, e enfiou o dedo polegar na boca.
Eu tinha de segurar toda a emoção possível ali. Que espécie de voluntária, de missionária eu seria se me desmontasse a cada vez que topasse com os efeitos da injustiça, da violência, e da morte ali? Eu tinha um coração. Mas ele ali teria de se comportar friamente, ou pelo menos, praticamente. Isto para mim, às vezes, era um sacrifício.
Ela parecia não entender nada do que eu falava. Alguns nativos falavam o português, mas alguns não. Sómente em seus dialetos. Todavia, eu sabia de uma coisa importante e certa: _ Há uma língua que é universal: o amor.

_ Você pode tirar o dedinho da boca, querida? E fiz o gesto de quem pede para que o objeto ou membro seja retirado da região bucal. _ e ela ainda não compreendia, embora eu tivesse certeza que tinha me entendido.
Retirei do bolso uma lasca de cana doce que eu tinha trazido do refeitório, e lhe ofereci para pôr no lugar do dedo. No alvo!
A pequena pôs-se a chupar o pedaço de cana, e eu então resolvi, lavar as mãos na cuba próxima à cama, e prepara uma gaze limpa embebida em soro para limpar as extremidades da ferida, que escorria secreção em razão do processo inflamatório da lesão. Fui lavando a ferida com toda a precaução, sem que a pequena demonstrasse incomodação, e a protegi de novo.
Quando terminei o procedimento, eu tinha descoberto. Descoberto que tinha sido feita para aquilo. Para aliviar nos outros a dor que ninguém tinha o poder de aliviar em mim.
Meus dias ali estavam começando apenas...havia muito o que fazer, muito o que conhecer, muito o que escrever...lápis, papel, música e tinta estavam sempre comigo. Eram mais fáceis de achar em minhas coisas, que um pacote de biscoitos ou uma barra de chocolate em minha provisão de alimentos. Antes de tudo, onde eu postaria minhas cartas? Qual era o sistema de entregas? Tinha de saber...hum...o nativo, o dos olhos abnegados...eu tinha que ir até ele.

Acho que Zeeka era o seu nome."
(continua)


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