The Brazilian Daily Artist

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Friday, September 26, 2008

"CAMINHOS INDELÉVEIS" _ CAP.2 _ LUÍSA ARTÈSA

"Caminhos Indeléveis _ pag 2"

"PRIMEIROS DESAFIOS"

Saí por volta de umas três horas da tarde. Com o olhar percorri a área externa à procura de Zeeka. As crianças gritavam, numa algazarra não muito bem compreendida por mim, apesar da mania de estudar um pouco de cada idioma...o dialeto deles, não conseguia compreender muito bem...porém alguns falavam bem o português, quer dizer, bem para eles...o ar era seco e o calor atraía as moscas. Vez ou outra era possível avistar animais silvestres em algum ponto do cenário.
Relaxei...estava cansada. O corpo começava a dar sinais de que necessitava de um banho e de uma cama, não importa de que tipo fosse...com o sono que estava, dormiria até na de um faquir...segui para o meu dormitório, rústico, mas preparado com toalhas, água de ânfora e bacia, um pedaço de bucha ainda com as sementes, lençóis e um travesseiro chato. Estava ótimo.
Deixei minhas coisas sobre a cama de solteiro forrada, e fui até o lavatório...um chuveiro simples de metal convidava ao banho. Foi uma das melhores chuveiradas que tomei...parecia sentir o pó dissolvido na água que escorria dos cabelos e do corpo.
Terminado o banho de cerca de uns vinte minutos,enxuguei-me, vesti a calcinha, uma camiseta e uma calça de ciclista bem confortável para dormir. Uma soneca me deixaria revigorada para a hora do jantar. O único problema: não aguentava dormir com luz...tinha de estar em total escuridão...mas, tudo bem...o sono era muito mais forte que a minha fotofobia...
Acordei eram vinte e dez...estranhei não me chamarem...mas em função de que o início de nossas operações seriam apenas pela manhã do dia seguinte, não me preocupei.
Uma das enfermeiras que havia vindo comigo, na mesma turma de voluntários, se aproximou da porta do meu quarto. Devia ter mais ou menos uns trinta anos...um pouco mais velha que eu. Mas nem por isto mais sábia...o que vim a perceber não muito tempo depois...há uma diferença entre, se falar muito, ser comunicativo, e falar demais, além do que se deve...este era o problema de Valma.
Este era o seu nome. Nunca tinha conhecido uma Valma.
Eu gostava de fazer amizade...mas tinha aprendido a manter as outras mulheres longe o suficiente por questão de precaução.
Sem olhar para mim, e não tirando os olhos das minhas coisas sobre a cama, ela foi se chegando...
_ Oi, garota, como é? _ A gente se viu na turma, mas eu não guardei o seu nome... _ disse ela.
Dei-lhe o mesmo tratamento: sem olhar para ela, fui catando minhas coisas e guardando na gaveta de uma velha cômoda ao lado da cama, e ao terminar, sentei-me, e com um pente de osso, fui penteando o longo cabelo...
_ Você fuma? _ perguntou ela. _Tenho os fósforos...mas não os cigarros...
Continuei penteando os cabelos, cheirando ao benjoim do sabão usado no banho, e disse-lhe meio que em suspiro de enfado, dando-lhe a entender que não estava para muita conversa e queria encurtar a história...
_ Não fumo...parei com esta droga há um ano. E não pretendo voltar. _ disse.
Ela me lançou um olhar denunciando um desdém, e atirou:
_ Hummm...determinada!...Tem autodomínio, isto é bom... Ao vê-la revirando os olhos ao falar, numa demonstração de sarcasmo, pensei, ao invés de lhe falar:
"...Tenho mesmo um excelente autodomínio...Porque se eu não tivesse, já tinha lhe pego pelo braço e posto do meu quarto pra fora, mulherzinha irritante e intrometida!...".
E para minha surpresa, ela parece ter lido meus pensamentos, ou então, pior, eu tinha falado alto!!
Ela deu uma girada nos calcanhares, e dirigiu-se a porta, não sem antes me olhar com aquele olho de tainha pescada há horas...e finalmente saiu do meu quarto.
Eram vinte e trinta e cinco...possivelmente por ser o primeiro dia, ninguém foi reclamar e nem apressar a comida e a dormida para os compromissos do dia seguinte. Não estava com fome.
Fechei a porta do meu quarto, estiquei-me na cama, e com o braço direito alcancei a minha mochila, na cadeira posta ao lado, na cabeceira. Saquei da minha gaita, e então comecei a tocar uma música latina antiga...


Gaviota que ve a los lejos
Vuela muy alto
Gaviota que emprende vuelo no se detiene
No te detengas, triste gaviota
Sigue tu canto, sigue tu canto
Tal vez mañana cambie tu suerte
Es tu destino que un mal amor
Vista su alma de negro duelo
Ingrato amor
Rompió sus alas
Ingrato amor
Manchó sus sueños...
Un día a esa gaviota yo vi pasar
Llevaba entre sus alas la soledad
Triste gaviota, calló su canto, dejó su nido
Dejó su nido, triste gaviota te vi pasar...
Es tu destino que un mal amor
Vista su alma de negro duelo
Ingrato amor
Rompió sus alas
Ingrato amor
Manchó sus sueños!...

Quando terminei, ouvi do lado de fora, alguém batendo palmas. Mas não eram palmas de mulher...eram de um som forte e surdo...levantei curiosa e sem abrir a porta, olhei por uma fresta da janela de madeira... era o nativo!

Zeeka...sim, era este mesmo o nome dele. Um amigo que viria a fazer ali. Um sincero e companheiro amigo...
(continua)



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